NÃO ESTOU À VENDA

Fizeram de mim rascunho de homem.
Todos mandam em mim e eu não sou eu.

Querem cortar-me as asas,
querem que ande, que cale,
que venha, que vá,
que lhes dê a razão.

Alimentam-me com números e letras;
que sim, que cale essa boca,
que preste na aula atenção,
que tranque entre quatro paredes
o meu coração.

Mas eu sou mais forte que o vento
e sonho e procuro e tenho esperança.

Vestem-me de casco e uniforme,
dão-me um fuzil em lugar de amor.
- Cale, trabalhe, produza!
Em silêncio você fica melhor!

Um dia dirão que eu durma,
sem chatear nem dizer adeus.

Quem está atrás destas vozes?
Todos podem estar,
mas não são suas vozes, Senhor,
você que não quer a paz dos mortos;
que quer a vida,
que dá liberdade, que é amor!

Faça, Senhor, que ninguém me pise,
que não me venda a ninguém,
que sonhe, que busque,
que não seja iludido
mas que tenha ilusões.

(Herminio Otero - Trad. GCC)