A mangueira ao longe

me acenava com sua manga-rosa.

O sol da meia-tarde ao atingi-la

tirava dela faíscas de ouro

que mexiam com meus olhos

e meu paladar.

 

Aproximei-me.

Olhei para o alto.

Os galhos se agitaram maciamente

como se a mangueira me oferecesse

alegremente sua única manga-rosa...

 

Subi devagar, facilmente,

a própria mangueira me oferecendo

as saliências do tronco como degraus

e os galhos como corrimão...

 

A manga-rosa piscava em ouro pra mim.

Faltava pouco. Estiquei o braço... Escorreguei...

A ramagem se fez tobogã

e caí no chão fazendo plof!

 

Foi como o triste acordar de um sonho...

Me senti ridículo, esfacelado no chão!

Por que acreditei nesse sonho da mangueira

me oferecendo sua manga-rosa?

Por que acreditei que a manga-rosa piscava para mim?

Por que acreditei num sonho de mangas e mangueiras

se me esperava um tombo?...

 

De repente um barulhinho de folhas

me fez levantar os olhos...

A manga-rosa mergulhava do alto da mangueira:

atravessou a folhagem

e bateu no meu peito fazendo plof!

 

Doeu, mas ganhei uma manga-rosa,

presente da mangueira para meus olhos

e meu paladar.

- Obrigado! - sussurrei baixinho...

E ouvi o farfalhar das folhas se agitando

no sorriso brincalhão da mangueira

da manga rosa... 

Gerardo Cabada