Era apenas algo brilhando no chão,

refletindo um raio de sol.

Ele aproximou-se, curioso,

e, antes de chegar perto,

reconheceu a caneta.

Pegou-a.

Não tinha carga.

Por isso tinha sido jogada fora.

Melhor que fosse jogada no lixo,

na lixeira de plásticos.

Mas estava lá, no chão,

como alguém que morreu

a caminho de algum lugar

e ficou caído na calçada...

 

Uma caneta vazia!

Onde tinha ido parar sua carga de tinta?

Ele olhou em volta, mas só estava ela,

a caneta sem carga!

A caneta sem tinta,

a caneta sem vida...

 

Segurou, com os dedos,

a caneta sem carga,

como se fosse escrever...

A caneta sem carga sentiu

o contato quente dos dedos.

Mas era uma caneta sem carga...

O contato dos dedos lhe fez bem,

precisamente porque não tinha carga...

Não tinha nada para atrair aqueles dedos...

Mas os dedos estavam lá

como se fossem escrever com ela,

caneta sem carga...

 

E sonhou...

Sonhou com outros dedos...

Sonhou com letras, palavras e textos...

Sonhou com tantas coisas que ela tinha escrito

em parceria com outros dedos...

Deixando-se levar mansamente por eles...

Como era gostoso aquele contato...

Como era gostosa aquela parceria...

 

Por isso, quando ele a jogou no lixo,

na lixeira de plásticos,

continuou a sonhar, a sonhar,

porque enquanto seu sonho vivesse

também continuaria vivendo,

ela, a caneta sem carga....

 

(Gerardo Cabada Castro)