Folha só, nada mais.

Nem tronco, nem galho, nem fruto, nem flor. Só folha!

 

Ser folha é aceitar ser igual a muitos,

perdido na multidão dos parecidos,

desaparecido no grupo dos parecidos.

 

Ela é vida, vida verde que promete,

vida que nasce animada,

batendo palminhas,

dando parabéns à mesma vida, beijando a luz.

Ela é a cabeleira que enfeita, o penteado da árvore,

o pulmão que respira, o pendão que balança.

 

Recebe sol, recebe chuva, acorda, dorme,

sabe do calor, sabe do frio,

sempre unida à mãe, filha fiel e muito irmã.

Parece babá das flores, toma conta da sombra que faz,

baila no vento, sonha com o luar que vem de cima.

Converte sol em sombra,
pedaços escuros no chão, refresca o caminheiro.

Chora com a chuva, continua chorando,

depois que o chuvisco se foi.

 

Sua história resume a história da árvore.

Na primavera, folha nova,

novo capítulo da história da árvore.

O fruto se apanha e é vida. A flor enfeita e é vida.

Mas, a pobre folha, um vento sem alma
a arranca do lugar e a deita ao chão.

Outro vento a varre, bailando com ela.

Depois, a morte, no chão, apodrecida,

feita chão, fecunda a terra.

Faz-se mãe e aceita escrever,

uma vez mais, toda a história da árvore,

nascida da sua morte,

ganhando vida na morte, que aceitou.

 

Eis a história da folha, sua arte de viver,
de multiplicar a vida sempre, morrendo até.

Isto, ela nos ensina:

o que vem a ser a vida, na vida da folha?

Vive-se ocultamente, trabalha-se invisivelmente,
ingratamente, não faz mal.

Morre-se sem data, nem avisos.

 

Mas, tudo vale, tudo pode ser vida,

se soubermos ter, como a folha,

a coragem de viver pelos outros,

de morrer dando vida a todo mundo,

de desaparecer a fim de que apareçam outros,

em nosso lugar.

O importante é que haja vida,

nascida de tudo, até da nossa morte.

Vivamos. Isto é: na árvore da vida,

desfolhemos corajosamente os dias.

(Adaptação da Revista Mundo Jovem)