(Ou "A QUEDA DA MENINA,

NA FAZENDA SANTA CLARA")

 

Às vezes é uma brisa sem vento

que acaricia meu rosto

e desaparece sem explicação...

Às vezes é um reflexo

que bate no meu olho

sem vir de ninguém...

Às vezes é um arrepio gostoso

sem alguma razão...

Eu sei que foi um anjo

que passou por mim

e senti o arzinho das asas

o brilho de sua aura

o arrepio do carinho

que ele tem por mim!

 

Eu sei que foi um anjo

mas não conto pra ninguém

e o segredo fica todinho

entre ele e eu!

 

Eu senti anjos de montão

na Fazenda Santa Clara:

às ordens desta santa

parecia um batalhão.

 

Eram anjos-criança com asas,

pra cuidar de tanta criança

sem asas, querendo voar

ao pular na piscina

ou descer no pneu suspenso,

ao cavalgar o cavalo Trovão

ou viajar na charrete

ou no carro de bois

ou...

 

Coitados dos anjinhos-criança!

Que trabalhão

com tanta criança sem asas

querendo voar!

 

A comandante Santa Clara

não deu folga ao batalhão!

Era uma agitação de asinhas

de brilhos e arrepios

sem descanso nenhum!

 

E quando a sonhadora menina

pensando pular na piscina

mergulhou de cabeça

na dura terra do chão,

senti de novo o arrepio

da brisa dos anjos voando

como flechinhas de luz!

 

Um anjo segurou a menina,

outro converteu a terra em pó

pra amaciar o mergulho,

outro afastou uma árvore

pra não dar uma batida,

outro não deu jeito

de segurar o pé a tempo,

e foi procurar um pouco d'água

na palma de sua mão

pra fazer com ela as lagriminhas

que brotaram dos olhos da menina,

pra suavizar a dor...

 

Senti depois um suspiro

que ninguém sentiu

dos anjinhos fazendo ufff!

para aliviar a tensão!

 

Só eu sei que foram anjos

mas não conto pra ninguém

e o segredo ficou todinho

entre eles e eu!

 

Gerardo Cabada Castro