Numa cidade do norte, vivia um homem que nascera com uma cabeça muito grande, e seu apelido era "Cabeçudo". Mas era uma pessoa pacata, bonachona e paciente. Não gostava do apelido, e ninguém o chamava assim, a não ser um cara muito chato que, desde os tempos do grupo escolar, onde quer que o encontrasse, dava-lhe um tapa na cabeça e perguntava:

- Tudo bom, Cabeçudo?

 

Um dia, depois do milésimo tapão na sua cabeça, Cabeçudo meteu a faca no chato e o matou.

A família da vítima era rica; a do Cabeçudo, pobre. Não conseguiram encontrar um advogado para defendê-lo, pois o crime tinha muitas testemunhas. Depois de procurarem em Belém, São Paulo, Rio, e outras cidades, sem sucesso algum, resolveram procurar um tal de "Zé Pinguço", advogado que há muito tempo deixara a profissão, pois, como o próprio apelido indicava, vivia de porre em porre. Para surpresa geral, o "Zé Pinguço" aceitou o caso.

 

Passou a semana anterior ao julgamento sem botar uma gota de cachaça na boca! Na hora de defender o Cabeçudo, ele começou a seu discurso assim:

- Meritíssimo juiz, honrado promotor, dignos membros do júri...

Quando todo mundo pensou que ele ia continuar a defesa, ele repetiu:

- Meritíssimo juiz, honrado promotor, dignos membros do júri...

Repetiu a frase mais uma vez e foi advertido pelo juiz:

- Peço ao advogado que, por favor, inicie a defesa.

 

"Zé Pinguço", porém, fingiu que não ouviu e continuou:

- Meritíssimo juiz, honrado promotor, dignos membros do júri...

 

O promotor pulou:

- A defesa está tentando ridicularizar esta corte!!!

O juiz:

- Advirto ao advogado de defesa que se não apresentar imediatamente os seus argumentos...

Foi cortado por "Zé Pinguço", que repetiu:

- Meritíssimo juiz, honrado promotor, dignos membros do júri...

 

O juiz não agüentou:

- Seu moleque safado, seu bêbado irresponsável, está pensando que a justiça é motivo de zombaria? Ponha-se daqui para fora antes que eu mande prendê-lo.

Foi então que o "Zé Pinguço" disse:

- Senhoras e Senhores jurados, esta Corte chegou ao ponto a que eu queria chegar... Vejam que, se apenas por repetir algumas vezes que o juiz é meritíssimo, que o promotor é honrado e que os membros do júri são dignos, todos perdem a paciência, consideram-se ofendidos e me ameaçam de prisão... pensem na situação deste pobre homem, que durante quarenta anos, todos os dias da sua vida, foi chamado de Cabeçudo!!!

 

Cabeçudo foi absolvido e o Zé voltou a tomar suas cachaças em Paz.

 

(Autor desconhecido)