Era uma vez um sapato. Mas não um sapato qualquer. Era Sapato Sapateira. Sapato Sapateira era um sapato preto, mais preto do que qualquer outro. Seu antigo dono mandou-o consertar para dá-lo de presente a um amigo necessitado, que agora era seu atual dono, por isso, da sola aos cadarços, estava brilhante como novo.

Apesar de ser muito jovem, Sapato Sapateira, tinha percorrido muitos caminhos pelo mundo, e por isso se considerava um filósofo, um revolucionário, um idealista.

Todas as sandálias, chinelos, tênis, sapatos, o admiravam. Era um líder.

Certo dia fugiu do armário onde o guardavam e foi ao parque da cidade.

- Aproximem-se todos!!! - gritou - Sapatos, chinelos, tênis, sandálias. Não importa a cor, se têm ou não têm cadarços, se são velhos ou novos. Venham todos!!! Liberem-se da opressão dos humanos. Estamos fartos de que nos pisem, de que vivam em cima de nós, que nos ponham sempre no chão...

Todos se aproximaram e o seguiram, pois gostavam dele. Sapato Sapateira os levou até as montanhas próximas, onde lhes deu a ordem de esperar com paciência...

Após três dias de espera, começaram a ouvir-se os primeiros resmungos. Sapato Sapateira, que era inteligente e experto, caiu na conta e perguntou:

- O que é que estão falando? Não acreditam em mim?

De repente, um chinelo, murmurador e fofoqueiro, começou a falar num tom não muito educado:

- Vejamos, senhor Sapato Sapateira, o que é que você quer realmente de nós? Para que nos trouxe até aqui? Quer organizar um grupo terrorista? Uma seita religiosa? Um sequestro? Vão chegar os extraterrestres?

Sapato Sapateira ficou indignado. Mas depois de um instante dominou-se e penetrando com seu olhar profundo as mentes e os corações de seus adversários, exclamou:

- São realmente ingênuos! Vocês não percebem que esta é a única maneira de conseguir que os humanos ponham os pés no chão!!!

 

(Santiago Arcila Vasquez)