Quando eu tinha oito anos de idade gostava muito de duas coisas: do meu canário e de semear. Semeava tudo: sementes de laranja, de uva, de melancia, trevos... qualquer coisa. Semeava nos vasos, nos canteiros da escola, nos buracos dos troncos das árvores e, sobretudo, debaixo duma mangueira enorme que existia no quintal. Que lindo ver as sementes brotarem e se transformarem em plantinhas, crescer, dar folhas, flores...

 Mas também gostava muito do meu canário: porque era pequenino, parecia um novelo de lã amarelinha, e fora um presente da minha professora, que achava que eu era a melhor da sala.

 O canário acordava-me todas as manhãs com o seu canto, e, mesmo que fosse Inverno, a casa ficava cheia de Sol e perfume de flores quando ele assobiava as suas canções. Mas, um dia, choveu granizo e o canário não resistiu ao frio daquelas pedras de neve. Morreu. Perturbada com a terrível revelação, depressa descobri que alguma coisa de diferente, silenciosa e implacável, pode interromper a vida e os sonhos. Então, cheia de uma tristeza tão grande e pura como só uma criança pode sentir, mas com uma leve esperança no fundo da minha dor, não hesitei: fui também semear o canário!

 Enchi o fundo de uma pequena caixa de sapatos com flores de laranjeira. Nesse pequeno leito de perfume branco, deitei o canário. De lado, como se dormisse. Os canários não dormem de lado, pensei; o melhor seria de barriga para baixo, como se estivesse a cheirar as flores. Mas se ele acordar daquele frio, e não vê o céu? Então, voltei-o com as patinhas para cima: parecia um canário a rezar ao deus dos passarinhos. Depois fechei a caixa. Desci as escadas devagar, para não encontrar gente e não me fazerem perguntas. Atravessei o quintal até a mangueira cujos ramos caíam até ao chão, cheia de folhas e frutos.

 Semeei o canário.

 Talvez seja uma semente que demore um pouco mais a nascer, porque tem asas e as asas crescem devagar. Mas eu sei, tenho a certeza que um dia, no alto duma árvore qualquer, eu avistarei meu canarinho. Como os meus olhos começam a ficar míopes e já confundo, muitas vezes, canários com raios de sol, espero que alguém, que ainda acredita em asas, me ajude a descobri-lo. E que não desista nunca de esperar a ave. Mesmo que ela tarde. Porque ela virá, temos de acreditar, perfumada de flores de laranjeira, rasgando portas de luz e inaugurando, com o seu canto, os dias claros de uma Primavera tão desejada... E virá para sempre.

(Maria Rosa Colaço em “Não Quero Ser grande”)