Um dia, durante as férias, vi uma menina de uns 5 ou 6 anos, filha de uma professora, que, depois de escalar uma cadeira e se debruçar sobre a mesa, segurou uma caneta como se fosse um punhal, e se dedicou a rabiscar ou apunhalar alguma coisa numa folha de papel. Fiquei curioso. Às vezes a língua da menina assomava pelo cantinho de sua boca, como se também ela estivesse curiosa em saber o que aquela caneta estava tramando. Fazia tempo que a menina lutava nesse empenho. 

Levantei-me e me aproximei. Ela nem ligou. Sorri tentando ser simpático:

- Olá!

Presenteou-me com um olhar rápido e voltou ao seu trabalho.

Então, fui direto:

- O que está fazendo?

- Escrevendo um livro! - respondeu como se estivesse dando uma informação tão evidente que até um idiota como eu, deveria saber.

- Ah! - exclamei.

Fiquei com receio de continuar perguntando. Mas, mesmo expondo-me a piorar sua opinião a meu respeito, acrescentei:

- Já escreveu muito?

Levantou a cabeça bruscamente, deixou a caneta sobre o papel, cruzou os braços, olhou-me fixamente ("quem será este idiota?" - parecia estar pensando) e explicou:

- Não! Estou começando agora!

Deu meia volta e foi embora. Inclinei-me sobre o papel. Nele estava escrita a letra a, ou seria um o?

- Que menina! - pensei, vendo-a afastar-se. Seria uma futura escritora? Pelo menos estava esforçando-se no mais importante da vida de um escritor: começar, nem que fosse pela letra a (ou seria um o?). E pela maneira de pegar a caneta estava disposta a ir em frente custasse o que custasse, mesmo atrapalhada por gente idiota, que não sabia o que ela estava fazendo nem aonde queria chegar. 

Conheci muita gente assim. Que escrevia porque sim, e pronto. Porque tinha muitas idéias na cabeça e ela iria explodir sem a torneirinha da caneta... ou do teclado do computador. E, depois, essa gente foi ajeitando melhor as idéias e as palavras escritas, nessa parada de letras que, dependendo das filas em que marcham, chamam de prosa ou de poesia, como se as idéias tivessem que desfilar numa passarela às ordens de um modista da língua.

Gente, que um dia foi criança, e que talvez também segurou a caneta como um punhal, arrancando dela os traços da letra a (ou seria um o?). Essa gente também teve um começo.

Porque sem um começo não é possível realizar um sonho...

 

Gerardo Cabada Castro