Minha mãe costumava pedir-me que arrumasse a mesa com "os pratos de porcelana novos". Como isso era bastante frequente, nunca lhe perguntei a razão. Supunha que era simplesmente um desejo dela, um capricho momentâneo.

 Uma noite, enquanto estava pondo a mesa, chegou inesperadamente uma vizinha nossa. Tocou a campainha e minha mãe, ocupada na cozinha gritou-lhe que entrasse. Ela entrou na grande cozinha e ao ver a mesa preparada com tanta elegância, desculpou-se:

- Oh! Vejo que esperam visitas. Voltarei em outra hora.

- Não, tudo bem! - respondeu minha mãe. - Não esperamos ninguém.

- Bem... - disse ela admirada. - Então, por que puseram na mesa os pratos de porcelana novos? Eu uso os pratos de porcelana umas duas vezes por ano, no máximo.

- É que, sabe, preparei a comida favorita de minha família - respondeu minha mãe sorrindo. - Se colocamos na mesa o melhor que temos para convidados especiais e para gente que não é da família quando vêm comer em nossa casa, por que não faremos a mesma coisa para a família? Não conheço ninguém que seja mais especial!

- Bem, eu sei, mas de tanto usar, alguns desses pratos vão quebrar...

- Não tem problema! Algumas lasquinhas de porcelana que se soltem são um preço muito barato quando nos reunimos em volta da nossa mesa familiar. Além disso, cada prato quebrado tem uma história pra contar.

Olhou para a vizinha e piscou um olho para mim. Depois dirigiu-se ao armário, tirou um prato e mostrou-o:

- Está vendo este prato lascado? Eu tinha 17 anos quando aconteceu. Nunca me esquecerei desse dia.

Baixou o tom da voz. Parecia estar recordando outros tempos..

- Um dia, meus irmãos estavam precisando de ajuda para terminar um trabalho no campo, e contrataram um jovem forte e elegante. Minha mãe pediu-me que fosse ao galinheiro procurar uns ovos, e foi, então, que vi o novo ajudante. Fiquei a olhar com que facilidade trabalhava, como se aquele trabalho pesado não lhe exigisse nenhum esforço. Era um jovem muito bonito. Delgado, cintura fina, braços fortes e cabeleira abundante e brilhante. Deve ter sentido a minha presença, porque de repente ele se virou e me viu. Ele apenas sorriu. Era incrível! - disse minha mãe lentamente passando o dedo pela beirada lascada do prato. Depois continuou. - Meus irmãos o convidaram a comer na nossa mesa. Quando meu irmão mais velho lhe disse que se sentasse a meu lado na mesa, quase morri. Estava nervosíssima e não fazia outra coisa que olhar para baixo.

De repente, minha mãe, ao cair na conta de que estávamos de olhos grudados nela, ficou vermelha e acabou rapidamente a história.

- O que aconteceu foi que ele me passou o prato e me pediu que o servisse. Eu estava tremendo tanto e com as palmas das mãos tão úmidas que o prato escorregou, bateu na mesa e soltou uma lasca de porcelana.

- Bem - disse a vizinha. - Vejo que é uma lembrança que é melhor esquecer...

- Nada disso! - exclamou minha mãe. - Um ano depois me casei com esse jovem maravilhoso. E até o dia de hoje, quando vejo esse prato me lembro com alegria do dia em que o conheci.

Com todo cuidado voltou a colocar o prato no armário. Depois pegou rapidamente outro prato. Estava quebrado e tinha sido colado com alguma cola especial, mas faltavam bastantes lascas de porcelana.

- Este prato quebrou no dia em que voltávamos do hospital com nosso filho recém nascido - explicou minha mãe. - Caiu-lhe das mãos à minha filha, então com 6 anos, e que estava querendo ajudar. No começo fiquei brava, mas depois pensei: "É apenas um prato quebrado e não vou permitir que isso atrapalhe a felicidade que sentimos com a vinda de nosso bebê". Por outro lado, lembro-me que nos divertimos muito, tentando colar os pedaços...

 Eu tinha certeza de que minha mãe tinha outras histórias para contar sobre esse jogo de pratos de porcelana... Um dia, em que ela tinha saído, abri a caixinha onde minha mãe guardava suas pequenas "jóias" e encontrei um pequeno embrulho de papel escondido no fundo da caixa. Desenrolei o papel e encontrei uma lasquinha de porcelana. Tive uma suspeita. Peguei-a e fui correndo ao armário da cozinha. Era a lasquinha de porcelana que faltava na beirada do prato que ela nos tinha mostrado...
 

 (Bettie B. Youngs - adapt. de GCC)