NO FUNDO DO POÇO

Um grupo de ciganos havia parado junto ao poço do nosso quintal. Na época eu devia ter uns cinco anos.

Um cigano em particular me fascinou, um homem gigantesco. Havia tirado do poço um balde cheio de água e estava de pé, com as pernas separadas, bebendo. Um pouco de água escorria-lhe pela barba vermelha aparada, e nas mãos musculosas segurava contra os lábios o grande balde de madeira, como se não pesasse mais do que uma xícara. Quando terminou, puxou da echarpe e enxugou o rosto. 

Depois inclinou-se e olhou para o fundo do poço. Curioso, tentei subir na beirada de pedra para ver o que ele estava observando. O gigante percebeu, sorriu e levantou-me nos braços.

- Sabe quem mora lá embaixo? - perguntou-me.

Abanei a cabeça.

- É Deus - disse ele. - Olhe! - E segurou-me acima da borda.

Lá na água parada como um espelho, vi meu próprio reflexo.

- Mas aquele sou eu!

- Ah! - tornou o cigano, pondo-me no chão. - Agora você sabe onde mora Deus.

(Ben Wakes)