Um venerável monge, membro do hinduísmo, estando próximo do fim de seus dias, pediu a Deus que lhe revelasse em que ou em quem iria se reencarnar da próxima vez. Foram grandes a sua surpresa e a sua tristeza quando Deus lhe disse:

- Você vai reencarnar num porco. A porca que você vê ali, vai ter parquinhos, e o terceiro que nascer terá uma mancha preta na metade da testa. Esse será você.

 

O bom monge nunca imaginaria que por alguma falta oculta que tivesse cometido, da qual ele nem sequer se lembrava, teria de encarnar-se num animal e, pior, no animal mais imundo de todos e desprezado em todas as culturas, cujo nome apenas representa um insulto em todas as línguas humanas: o porco. Tinha de encontrar algum remédio para essa situação, e se pôs a pensar no que podia fazer.  Finalmente, teve uma idéia. Chamou seu discípulo favorito e lhe disse:

- Estou metido numa encrenca. Deus me revelou que, na próxima encarnação, serei um porco, e gostaria de evitá-la. Ele disse que eu serei o terceiro dos porquinhos daquela porca que ali está, que nascerá com uma mancha preta no meio da testa. Você, que é meu discípulo, tem de me obedecer, sem contestar as minhas ordens. Pois bem, ordeno-lhe que preste muita atenção no que vai acontecer: procure o porquinho com a mancha na testa, o terceiro que nascer, deixe-o crescer por alguns dias para ninguém suspeitar e depois, quando ele começar a andar sozinho, pegue uma faca grande, e quando ninguém o perceber mate-o. É, mate-o. Isto é, mate-me a mim, pois você bem sabe: já que devo ser um porco, quero sê-Io o menor tempo possível. Mate-me logo, e assim logo poderei ser outra coisa. Seja ela qual for, não será pior que esta. Prometa que me obedecerá.

- Prometido.

 

Tudo aconteceu segundo o previsto. Morreu o monge, deu à luz a porca, nasceu o terceiro porquinho com a mancha na testa, e o discípulo observava tudo com cuidado. Passados alguns dias, quando o porquinho andava por si próprio no meio do lixo, o discípulo aproximou-se dele, cercou-o num canto, pegou a faca e se dispôs a matá-lo. Então, o porquinho começou a gritar e a dizer com voz humana:

- Não me mate! Não me mate! Por favor, não me mate, deixe-me viver.

 O discípulo, surpreso, perguntou:

- Mas não me pediu que o matasse, e por justa causa?

 O porquinho respondeu:

- É, eu pedi, mas quando via a vida do porco do ponto de vista do homem. Agora, vejo-a do ponto de vista do porco. E é magnífica! Olha, não tenho nada para fazer o dia todo, jogo-me na lama à vontade, posso comer qualquer coisa pois tudo me faz bem, e as pessoas me deixam em paz pois ninguém quer se aproximar de mim. Isso não é um castigo, é uma recompensa! Deixe que eu desfrute muito tempo isso, e muito obrigado por tudo, por ter me obedecido e pela sua cooperação. Que Deus o abençoe e você possa tirar proveito desta minha última lição.

(Lenda indiana contada por Carlos Vallés)