Quando eu era pequenina, pai era como luz de geladeira: toda casa tinha uma, mas ninguém sabia como ela funcionava depois de se fechar a porta.

Papai saía de casa todo dia de manhã, e de noite sempre parecia contente ao ver todo mundo. Era ele quem abria o vidro de conservas, quando ninguém conseguia. Era a única pessoa da casa que não tinha medo de ir ao porão sozinho. Ele se cortava ao barbear, mas ninguém beijava o machucado, nem ficava aflito.

Estava entendido que quando chovia, era ele quem ia pegar o carro e o levava para a porta da frente. Quando havia alguém doente, ele saía para mandar fazer a receita. Armava ratoeiras e podava as roseiras para que os espinhos não nos machucassem quando entrássemos pela porta da frente. Quando ganhei minha primeira bicicleta, ele correu ao meu lado milhares de quilômetros, pelo menos, até eu pegar o jeito.

Eu tinha medo do pai dos outros, mas não do meu. Um dia fiz chá para ele. Era só água com açúcar, mas ele se sentou numa cadeirinha e disse que estava delicioso.

Quando eu brincava de boneca, a boneca-mamãe sempre tinha muito que fazer. Eu nunca sabia o que fazer com o papai-boneco, de modo que o mandava dizer:

- Agora vou trabalhar! - e jogava para debaixo da cama.

Quando eu tinha nove anos, o meu pai, um dia, não se levantou para ir trabalhar. Foi para o hospital e morreu no dia seguinte. Fui para o meu quarto e peguei o boneco-pai debaixo da cama, espanei-o e o pus na minha cama.

Ele nunca fazia nada; eu não sabia que a ausência dele ia ser tão triste. Continuo sem saber por quê.

(Autora desconhecida)