Um dia, o senhor Martim Braga caminhando pela rua de terra batida, abaixou-se e pegou um pequeno barbante. Ele achava que tudo podia ser aproveitado.

 

Nesse instante, viu que seu Marcelo de Oliveira o estava observando do outro lado da rua. Fazia tempo que estavam brigados. Martim, envergonhado, escondeu rapidamente o barbante sob a camisa, e fingiu que estava procurando alguma coisa no chão. Depois continuou caminhando.

 

Ao meio-dia, o pregoeiro público percorreu as ruas avisando com voz forte que o Sr. Francisco de Almeida tinha perdido uma carteira, contendo 5 mil reais e alguns papéis de negócios. Quem a encontrasse devia entregá-la no posto policial e receberia 50 reais de recompensa.

 

Pouco mais tarde um oficial da justiça apareceu na porta de um restaurante e perguntou:

- O senhor Martim Braga, está aqui?

- Estou aqui - respondeu o senhor Martim, do fundo do restaurante.

- Senhor Martim, - continuou o oficial - poderia me acompanhar ao posto policial?

O camponês, surpreso, esvaziou de uma vez seu copo, e seguiu o oficial.

 

- Sr. Martim - disse-lhe o policial, quando chegou, - viram o senhor apanhar no chão a carteira do senhor Francisco de Almeida.

O camponês, aturdido, olhava o policial, já amedrontado pela suspeita que pesava contra ele.

- Palavra de honra! Eu não achei essa carteira!

- Viram o senhor.

- Viram? Quem me viu?

- O senhor Marcelo de Oliveira.

- Ah! Esse safado! O que ele viu foi eu apanhar este barbante!

Enfiou a mão no bolso e tirou o barbantinho.

- O senhor Marcelo não confundiria um barbante com uma carteira!

- Mas é a pura verdade. Juro por Deus!

O policial continuou:

- Depois de ter recolhido a carteira, o senhor ficou procurando se tinha caído alguma moeda.

O homem sufocava de indignação e de pavor. Por mais que protestasse, não acreditavam nele. A seu pedido, foi revistado sem que se encontrasse nada em seu poder. Finalmente, foi liberado.

 

Assim que saiu do posto, o senhor Martim foi interrogado por uma multidão, mas ninguém acreditou nele. Ele se zangava, contando sem parar a mesma história. Todos riam.

 

Passou mal a noite inteira. No dia seguinte, perto da uma hora da tarde, Mário Pedreira, empregado de uma fazenda, devolveu a carteira e seu conteúdo ao senhor Francisco  Almeida. Ele a tinha achado na estrada.

 

A novidade espalhou-se pela cidade. O Sr. Martim foi informado e imediatamente se pôs a narrar sua história, completada pela solução. Agora, estava tranqüilo, mas as pessoas continuavam a olhá-lo com um ar de gozação. Num dos dias seguintes, quando tentava explicar sua aventura, alguém gritou-lhe:

- Cale a boca, espertinho! Sempre tem um que encontra e outro que devolve.

Acusavam-no de ter devolvido a carteira por um cúmplice. Não adiantava protestar. Todos riam dele.

 

Voltou para casa humilhado e indignado. A injustiça da suspeita era uma punhalada no coração. Quanto mais se explicava menos acreditavam nele. Seu espírito, atingido, enfraquecia. Perto do fim de dezembro, caiu de cama. Morreu nos primeiros dias de janeiro, e, no seu delírio de agonia, atestava sua inocência repetindo:

- Um barbantinho... um barbantinho, olhe, senhor prefeito, este aqui...

 

(Guy de Maupassant - resumido e adaptado por GCC)