Entro no elevador com a minha filha de três anos e um metro de altura. E ela exprime então, contemplando a botoeira, o grande sonho da sua vida:

- Eu ainda vou crescer e alcançar aquele número lá do alto!

 

Brinco com ela, dizendo-lhe que vai fazer coisas mais interessantes do que andar de elevador, e acabo caindo na clássica pergunta:

- E o que você vai ser quando crescer?

 

Olha-me intrigada... Parece-me que não entendeu a questão e apresso-me a esclarecer:

- Você vai ser médica? Vai ser dentista? Professora?

 

Responde-me convicta:

- É claro que eu vou ser mãe!

 

Devo confessar que adorei a resposta! Diverti-me lisonjeada! Também é verdade que, dias depois, contrariada com algumas exigências minhas, a pequena resolveu que queria mesmo era ser "vó".

 

O episódio fez-me pensar e corar. Por que não me ocorrera o papel de mãe como uma possibilidade futura para a minha filha, certamente não exclusiva, mas primordial? E por que ela, sem ter sido incentivada diretamente, amealhara para si esse sonho, essa aspiração?

 

Como é natural, não ando a esbanjar a toda hora, entre sorrisos e amabilidades, a felicidade de ser mãe, e temo que a minha filha não a veja estampada no meu rosto com a freqüência que eu desejaria. Mesmo assim, a maternidade revelou-se a grande aspiração dessa mulher-criança. Há aí um mistério que ultrapassa qualquer explicação de ordem cultural: jamais agi deliberadamente no sentido de criar a minha filha para ser mãe, e no entanto essa aspiração brotou com toda a espontaneidade no mais íntimo do seu ser.


***   ***   ***

A menina cresceu. Já alcança os últimos números da botoeira e vão-se delineando as preferências por determinados assuntos que a farão decidir por uma carreira. Contrariando todos os nossos planos, que eram, aliás, ambiciosos, ficou filha única, o que a levou a considerar, certa vez:

- Se me caso com um filho único, meus filhos não terão tios!

 

E por estes dias conversávamos com uma amiga, filha única, mãe de uma menininha, mas que já saboreia com grande entusiasmo o fato de ter sobrinhos... Assunto: a numerosa e agitada família do marido dela, com suas histórias que provam quanto os irmãos são importantes na educação dos filhos. E a minha filha cobrou da nossa amiga:

- Você não vai permitir que a Laurinha seja filha única, vai?

- Não vou, não! - ria-se. - Se não tiver mais filhos, adoto! - concluiu convicta.

 

Ora, ora! Que tempos de surpresas estes! Nem uma palavra sobre o futuro da carreira que os filhos têm o dom de comprometer, nem uma queixa quanto ao trabalho e preocupação que costumam provocar. Pelo contrário, um decidido posicionamento contra a solidão, firme defesa das possibilidades de os filhos serem tios, e os netos terem primos... Um sim eloqüente para a família!

 

E a minha filha, que antes queria ser mãe, agora quer ser mãe de muitos... Embora já domine perfeitamente o computador.

(Sueli Caramello Uliano em “Por um novo feminismo”, Quadrante, São Paulo, 1995 e 2003).