Caminhava mergulhada em meus pensamentos, em meus problemas, recordando a frase: "Ninguém é tão inútil que não possa ser maravilhoso", quando aconteceu...

- Não tenha medo...

 

Foram estas suas primeiras palavras para comunicar-se comigo. Fiquei olhando-o, disposta a escutá-lo.

- Posso dizer-lhe uma coisa?... Eu tive alguns problemas e faz muito pouco tempo que saí da cadeia. Se você pudesse dar-me algum dinheiro para um sanduíche... Não é pra beber!...

 

O que é a vida! Pedir precisamente a mim, que tinha ido caminhando à praia, alguns quilômetros, e voltava a pé, porque queria economizar. Dentro de pouco tempo iria viajar para o noviciado, pois penso fazer-me religiosa ao acabar o curso de magistério, dentro um mês...

 

Por isso eu tive que dizer-lhe que não tinha dinheiro nem para pegar o ônibus. Imaginem minha surpresa, quando ele enfia a mão no bolso, tira uns trocados e me oferece o preço do ônibus. Disse-lhe que não aceitava, que continuaria meu caminho a pé... Mas ele, um pobre infeliz, o "irmão miséria" para a sociedade, não me deixou ir embora sem pôr nas minhas mãos o dinheiro que precisava para não continuar andando.

 

Fiquei gelada! Minhas pernas começaram a tremer. Senti Cristo nele. Recordei aquela frase... Olhei-o nos olhos. Foi quando percebi que o "irmão miséria" não apenas tinha enchido minhas mãos, mas também tinha enriquecido meu coração com uma coisa mais valiosa que aqueles trocados...

 

(De "Documentos vivos para pré-adolescentes")