O recinto do Tribunal estava lotado, não tanto pela importância dos crimes que seriam julgados, mas pela presença do prefeito de Nova York, que costumava, nessas ocasiões, sentenciar casos policiais simples, com decisões, que ficavam famosas pelo seu conteúdo de sabedoria e originalidade.

 Um dos acusados fora pego em flagrante, roubando pão numa movimentada padaria. O homem inspirava compaixão: muito magro, barba por fazer, roupas em desalinho, era a própria imagem da miséria!...

 O prefeito submeteu-o, solene, ao interrogatório, consultou as testemunhas e, após rápida apreciação, considerou-o culpado, aplicando-lhe a multa de cinqüenta dólares. A alternativa seria a prisão...

 Em seguida dirigindo-se à pequena multidão que acompanhava, atenta ao julgamento, disse, peremptório:

- Quanto aos presentes, estão todos condenados a pagar  meio dólar cada um, importância que servirá para liquidar o débito do réu, restituindo-lhe a liberdade.

 E ante a estupefação geral, acentuou:

- Estão multados por viverem numa cidade onde um homem é obrigado a roubar pão para matar a fome!...

 Todos nós, habitantes de qualquer cidade do Mundo, estamos sujeitos a uma multa muito mais severa, a uma sanção muito mais grave - a frustração dos  anseios  de  Felicidade,  os desajustes intermináveis,  as  crises de angústia - por vivermos num planeta onde as palavras fraternidade, bondade, solidariedade, são enunciadas como virtudes raras, quando são apenas elementares deveres, indispensáveis à preservação do equilíbrio em qualquer comunidade.

 Não há alternativa. Podemos nos isolar da multidão aflita e sofredora, mas jamais estaremos bem, porquanto a infelicidade é o clima crônico dos que se fecham em si mesmos.

 (Richard Simonetti no livro “Atravessando a rua”)