Esta é a aventura de um moço famoso, conhecido na Argélia por vários nomes. Era como um louco que vendia a sua sabedoria, que zurrava como um jumento para ser ouvido, e que às vezes era muito esperto e invencível.

 

Um dia, ele encontrou alguns amigos prontos para combater. Tinham escudos, lanças, arcos e muitas flechas.

 - Aonde vão desse jeito? - perguntou-lhes.

 - Você não sabe que somos soldados profissionais? Vamos participar de uma grande batalha, que promete ser muito violenta!

 - Muito bem, eis a oportunidade que eu tenho para ver o que acontece nessas coisas de que ouvi falar, mas que nunca vi com os meus próprios olhos. Deixem-me ir com vocês, só desta vez!

 - Está bem! Seja bem-vindo!

 

E lá foi ele com o pelotão que se ia juntar ao exército. Ao chegar ao campo da batalha, a primeira flecha acertou-lhe em cheio na testa!

 - Depressa! Um cirurgião! - gritaram seus amigos.

 

O médico chegou, examinou o ferido, meneou a cabeça e declarou:

 - A ferida é profunda. Mesmo assim, é facil remover a flecha. Mas, se vier preso um pedacinho do cérebro, por menor que seja, está perdido!

 

O ferido agarrou a mão do médico, e disse-lhe:

 - Doutor, pode remover a flecha sem medo; não vai encontrar nela a mais ínfima parte de cérebro.

- Fique calado! - disse o médico. - Deixe os especialistas tratarem da flecha! Como sabe que ela não atingiu o seu cérebro?

 - Tenho certeza - disse o moço. - Se eu tivesse a mais pequena partícula de cérebro, nunca teria vindo com esses meus amigos. 

(Conto argelino)