Não existia festa nem baile em que o mestre Figueiredo não tocasse sua harpa mágica. Seus dedos acariciavam as cordas, irrompia a alegria e brotava incontrolável o caudaloso rio de sua música prodigiosa.

Ele vivia de povoado em povoado, anunciando e fazendo a festa. Ele, sua mula e sua harpa, pelos infinitos caminhos da planície. Certa noite, ele tinha de cruzar um matagal, e ali o esperaram os bandidos. Assaltaram-no, golpearam-no selvagemente até deixá-lo quase morto. Levaram sua mula e sua harpa.

Na manhã seguinte, passaram por ali alguns tropeiros e encontraram o mestre Figueiredo coberto de feridas e de sangue. Estava vivo, mas num estado muito ruim. Quase não podia falar. Fez um incrível esforço e chegou a balbuciar com os lábios intumescidos:

- Roubaram minha mula...

Voltou a cair num silêncio doloroso e, depois de uma longa pausa, conseguiu pronunciar com seus lábios destroçados, uma nova queixa:

- Roubaram minha harpa...

De repente, quando parecia que já não ia dizer mais nada, começou a rir. Era um riso profundo e fresco que inexplicavelmente saía daquele rosto desolado. E, em meio ao riso, o mestre Figueiredo conseguiu dizer.

- Mas não roubaram minha música! 

(Eduardo Galeano)