Era uma vez um rei chamado Dionísio que governava Siracusa, a cidade a mais rica da Sicília. Vivia em um belo palácio onde havia muitas coisas belas e caras, e um numeroso grupo de empregados que estavam sempre prontos para o servir.

 

Naturalmente, por causa da riqueza e do poder de Dionísio, muitos em Siracusa invejavam sua fortuna. Dâmocles era um deles, e sendo um dos melhores amigos de Dionísio, sempre lhe dizia:

- Como você é afortunado! Você tem tudo que qualquer um poderia desejar. Você deve ser o homem mais feliz do mundo!

 

Um dia Dionísio amanheceu cansado de ouvir tal conversa.

- Venha aqui - disse. - Você realmente acredita que eu sou mais feliz do que todos?

- Mas é claro que você é! - Dâmocles respondeu. - Veja os tesouros que você possui, e o poder que você tem. Você não tem uma única preocupação. Como a sua vida poderia ainda melhorar?

- Imagino que você ficaria satisfeito trocando de lugar comigo.

- Isso seria um sonho - respondeu Dâmocles. - Se eu pudesse ter suas riquezas e prazeres por somente um dia, seria a maior felicidade de minha vida!

- Muito bem. Troquemos os lugares por apenas um dia.

 

Assim, no dia seguinte, Dâmocles foi conduzido ao palácio, e todos os empregados foram instruídos para tratá-lo como seu amo.

Vestiram-no com vestes reais, e colocaram-lhe uma coroa de ouro. Sentou-se à mesa no salão de banquetes e fartos alimentos foram-lhe ofertados. Havia vinhos caros, flores bonitas, perfumes raros e uma música deliciosa. Descansou entre macias almofadas, e sentia-se o homem mais feliz do mundo.

- Ah! isso é que é vida! - disse a Dionísio, que se sentou no extremo oposto da grande mesa - Eu nunca me imaginei feliz assim.

 

Mas, quando levou um copo aos lábios, levantou olhos para o teto... Dâmocles enrijeceu. O sorriso desvaneceu-se de seus lábios, e sua face ficou lívida. Suas mãos tremeram. Não quis mais comida, nem vinho, nem música. Queria somente sair do palácio.

Diretamente acima de sua cabeça havia uma espada pendurada, presa ao teto somente por um único fio de cabelo. Sua lâmina afiada resplandecia apontada para sua cabeça

- Qual o problema, meu amigo? - Perguntou Dionísio - Você parece ter perdido o apetite.

- Essa espada! Essa espada! - Dâmocles sussurrou - Você não a vê?

- Naturalmente! Eu a vejo - respondeu Dionísio. - Eu a vejo todos os dias. Sempre pendurada sobre a minha cabeça. E há sempre a possibilidade de alguém ou alguma coisa cortar a fina linha. Talvez um de meus próprios conselheiros com inveja de meu poder, tente matar-me. Ou alguém pode espalhar mentiras sobre mim, para virar todo o povo contra mim. Pode ser que um reino vizinho envie um exército para conquistar este trono. Ou eu posso tomar uma decisão estúpida que traga minha queda. Se você quiser ser um líder, você deve estar disposto a aceitar estes riscos. Vêm com o poder. Você entende?

- Sim, eu entendo - foi a resposta de Dâmocles. - Eu vejo agora que eu estava errado, e que você tem muito a pensar além de sua riqueza e fama. Tome de volta o seu lugar e deixe-me ir de volta para a minha própria casa.

 

E por muito tempo, enquanto viveu, Dâmocles nunca quis outra vez mudar de lugar com o rei.

 

(Anedota moral grega, contada por Cícero)