João era um rapaz muito esperto. Casou e foi embora para a cidade. Ali montou um pequeno negócio com as economias que ele e a esposa tinham juntado quando eram noivos. Tudo foi indo bem em quanto tinham dinheiro, mas quando acabou, o casal viu-se obrigado a voltar para o interior e trabalhar na roça. 

Um dia, enquanto descansava um pouco, fumando um cigarro e bebendo um gole de água, lembrou-se de que muitos na cidade jogavam na loteria e pensou que se tivesse sorte, isso seria a solução. Foi à cidade e procurou uma casa lotérica.

Na volta, passou pela igreja, e pediu a Santo Antônio, de quem era muito devoto, pois graças a ele tinha conseguido uma moça tão boa como esposa, que lhe desse bastante sorte para ganhar na loteria. Mas, ou Santo Antônio não o ouviu ou não se lembrou, o fato é que ele perdeu o dinheiro e não ganhou na loteria.

Mas não desistiu e voltou a jogar. Foi de novo à igreja, rezar a Santo Antônio. Enquanto rezava, o sacristão passou perto dele e ouviu-o dizer:

- Santo bendito, faz que ganhe na loteria. Preciso muito de dinheiro e já gastei tudo que tinha. Você sempre me ajudou. Ajudou-me com um bom casamento, ajudou-me nos momentos mais difíceis, ajudou-me quando fiquei doente eu ou minha mulher. Ajuda-me também a ganhar na loteria. Ao sair da igreja vou dar 5 reais ao primeiro pobre que encontrar...

O sacristão, escondido atrás dele disse:

- Dobra, João, dobra!

- Tá bom - completou João. - Darei 10 reais!

Nem desta vez nem das seguintes, João ganhou na loteria. O sacristão, de olho na chegada de João à Igreja, escondia-se detrás dele e sempre lhe dizia:

- Dobra, João, dobra!

E João foi dobrando, vendendo uma coisa e outra, para poder dobrar o dinheiro que dava aos pobres com a esperança de ganhar na loteria...

Um dia, João estava mais uma vez diante do santo, quando o sacristão repetiu:

- Dobra, João, dobra!

- Como vou dobrar, meu santinho? - reclamou João. - Já não tenho nada. Vendi tudo! Só ficamos minha mulher e eu!

- Pois dobra, João! Dobra as costas e trabalha, vagabundo!
 

(Conto popular da Galícia - Espanha - recolhido por Henrique Harguindey)