Quando estava com dezessete anos vi meu coração se despedaçar. A pessoa a quem confiara meu amor, depois de muito tempo, saiu de minha vida sem ao menos dar explicações coerentes acerca do motivo óbvio que só pude perceber algum tempo depois: o amor acabara.

 

 Lembro-me que chorei por alguns dias, com a porta do quarto trancada, vivendo das lembranças e procurando um motivo plausível, uma forma de autopunição pelo que acontecera, como se a culpa fosse minha. Finalmente resolvi sair de meu quarto para um passeio pelos jardins da vizinhança. Quando retornei, ele me ligou pela última vez e chorei até pegar no sono.

 

Quando acordei pela manhã havia uma mensagem escrita por minha mãe com batom vermelho no meu espelho:

- "Alegre-se, quando os semideuses vão embora, os deuses vêm."

 

Já tinha ouvido essa frase, e durante muito tempo a deixei onde minha mãe a havia escrito. Alguns meses depois conheci a pessoa maravilhosa que se tornaria minha alma gêmea pelo resto da vida.

 

Na noite em que ficamos noivos chamei minha mãe ao quarto, olhei para o espelho e, como se me adivinhasse, ela voltou à cozinha para buscar o limpa-vidros e apagar a frase do espelho. Meu coração estava curado, e ela sabia que estava tudo bem novamente.

 

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Essa frase nunca mais me saiu da mente. Hoje, sempre que vejo meus filhos se desiludindo com seus amores que julgavam eternos, a imagem de minha mãe me volta à lembrança e os faço se sentirem amados e queridos. Então, escrevo a frase no espelho do quarto deles, mostrando, pelo meu exemplo, que o destino nos reserva alguém à nossa espera lá fora, atento ao momento certo para entrar em nosso coração.

 

 

(Anacoreta Almuadem)