Foi uma longa e tranquila conversa, apesar das circunstâncias. Seu pai tinha falecido fazia pouco mais de uma semana. Ela e a mãe preferiram passar os primeiros dias após o falecimento na casa de uma tia em vez de ficarem sozinhas no apartamento. Agora era necessário prepará-lo para a volta. Por isso tinha vindo conversar comigo, como fazia quando ainda era aluna do colégio.

- Bem, agora tenho que ir - disse. - Sei que ao entrar no apartamento, todas as coisas vão recordar-me o pai. Vou chorar... mas preciso ir... Depois conto-lhe como foi.

Despediu-se e saiu.

 

No dia seguinte voltou.

- Você não vai acreditar! - começou a contar. - Não chorei! Cantei! É isso mesmo! Cantei!

Diante da minha estranheza ela explicou:

- Quando saí daqui caminhava pela calçada pensativa, devagar, com a cabeça baixa. Parei no sinal vermelho antes de atravessar a avenida. Quando o sinal abriu e entrei na avenida quase bati com uma velhinha que vinha em sentido contrário. Ela me parou e disse:

- Moça! Você viu que céu azul bonito há lá em cima!

Surpresa por aquela palavras, levantei a cabeça e olhei. É! Havia um céu azul bonito lá em cima. Mas quando fui falar com a velhinha ela tinha desaparecido. Olhei para trás. Ela já tinha alcançado a calçada e se perdia no meio da gente. Corri para alcançar o outro lado da avenida sem deixar de olhar para o céu.

 Como não tinha percebido até agora que havia lá em cima um céu tão bonito? - pensava.

Caminhei até o prédio, admirando aquele azul profundo, e foi completamente transformada que entrei no nosso apartamento. Ao pouco tempo, enquanto tirava o pó e arrumava os móveis, cheguei mesmo a cantar... Tudo porque aquela velhinha, que nunca tinha visto na minha vida, me fez levantar os olhos do chão e fixá-los naquele "céu azul bonito lá em cima"...]

 

 (G. Cabada)