Eu caminho pela rua. Existe um buraco na calçada. Estou distraído, pensando em mim, e caio lá dentro. Sinto-me perdido, infeliz, incapaz de pedir ajuda. Não foi minha culpa, mas de quem cavou aquele buraco ali. Eu me revolto, fico desesperado, sou uma vítima da irresponsabilidade dos outros e passo muito tempo lá dentro.

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 Eu caminho pela rua. Existe um buraco na calçada. Finjo que não o vejo. Aquilo não é problema meu. Eu caio de novo lá dentro. Não posso acreditar que isso aconteceu mais uma vez. Devia ter aprendido a lição e mandado alguém fechar o buraco. Demoro muito tempo para sair dali. 

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 Eu caminho pela rua. Existe um buraco na calçada. Eu o vejo. Eu sei que ele está ali, porque já caí duas vezes. Entretanto, sou uma pessoa acostumada a fazer sempre o mesmo trajeto. Por esse motivo, caio uma terceira vez: é o hábito. 

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 Eu caminho pela rua. Existe um buraco na calçada. Eu dou a volta em torno dele. Logo depois de passar, escuto alguém gritando. Deve ter caído naquele buraco. A rua fica interditada, e eu não posso seguir adiante. 

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 Eu caminho pela rua. Existe um buraco na calçada. Eu coloco tábuas em cima. Posso seguir meu caminho e ninguém mais tornará a cair ali. 

(Portia Nelson e Paulo Coelho)