VIVA A AMAZÔNIA

 

PEQUENA PEÇA EM 1 ATO

por

GERARDO CABADA CASTRO

 

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 PERSONAGENS

(por ordem alfabética)

 

ANALU

BEL

BERTA

GU

MANDO

RO

SOLIMAR

TINA

 

Todos adolescentes, entre 14 e 17 anos.

Menos TINA, entre 7 e 10 anos.

 

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CENÁRIO

 

À escolha do diretor da peça: uma rua ou uma praça, com um ou dois bancos, onde podem sentar-se os personagens, para não ficarem o tempo todo de pé. Os bancos devem ficar na parte da frente do palco, mas deixando espaço suficiente para que os personagens possam mover-se livremente diante deles.

Não está demais recordar que, quando se fala de direita e esquerda, refere-se à direita e esquerda do ator olhando para a platéia.

 

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 MATERIAL NECESSÁRIO

 

Uma bonequinha

7 plantinhas em seus vasos

 

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ATO ÚNICO

 

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Entram, ao mesmo tempo, SOLIMAR, pela DIREITA, trazendo uma boneca, com o cuidado e carinho que merecem as coisas delicadas e queridas. ANALU, pela ESQUERDA, trazendo nas mãos um vaso com uma plantinha.

Ao se cruzarem, no centro do palco, uma olha para o que a outra leva, com tanto interesse que continuam caminhando, mais devagar, com o rosto virado para trás... Depois, já quase saindo do palco, param, viram-se completamente uma para a outra, e se aproximam, parando na frente dos bancos...

 

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SOLIMAR..... Que plantinha é essa?

ANALU.......... Não sei o nome. Ganhei de presente. Dizem que só existe na Amazônia.

SOLIMAR...... Posso ver?

ANALU.......... Pode (As duas meninas se aproximam mais).

SOLIMAR...... É linda! Pena que não sabe o nome!

ANALU.......... Eu vou perguntar. O meu professor de ciências deve saber.

SOLIMAR...... Posso pegar?

ANALU.......... Pode (Oferece o vaso. Mas, como a outra menina está com a boneca nas mãos, as duas se atrapalham. Olham para os lados, como procurando um lugar para colocar a boneca ou a plantinha).

SOLIMAR...... (Inclina-se para colocar a boneca no banco, mas a outra menina que percebe seu gesto, coloca rapidamente o vaso no banco e pega a boneca) Obrigado! (Pega a plantinha no banco e olha-a como se fosse uma boneca) Linda!...

ANALU.......... (Mesmo com a boneca nas mãos, toda sua atenção está na plantinha). Olhe as folhinhas: como brilham! Por um lado é um verde mais escuro, e pelo outro, um verde mais claro. Deve ser o sol... Olhe, vão nascer mais duas folhinhas aqui...

SOLIMAR...... Você sabe que existem plantas carnívoras?

ANALU.......... Mas esta não é!... (Acaricia a plantinha com a mão direita, enquanto segura a boneca com a esquerda. Fala dirigindo-se à plantinha) Você é boazinha, não é Amazonina?...

SOLIMAR...... Quem é Amazonina?

ANALU.......... É a plantinha. Eu lhe dei o nome de Amazonina, porque é da Amazônia.

SOLIMAR...... Que nome bonito!

ANALU.......... (Coloca a boneca, de qualquer jeito, debaixo do braço direito, e com as duas mãos, acaricia as folhas da plantinha) Quando estiver cheia de folhas, vai ficar maravilhosa.

SOLIMAR...... É preciso regá-la todos os dias, para que não morra...

ANALU.......... (Pega com a mão esquerda a boneca, e, enquanto com direita apalpa a terra do vaso, com a esquerda, deixada cair ao longo do corpo, balança a boneca segurando-a por uma perna) A terra está bem úmida. Eu não deixo secar.

SOLIMAR...... Quem lhe deu esta planta?

ANALU.......... Minha mãe. Ela comprou numa loja de plantas perto de casa.

SOLIMAR...... É muito longe?

ANALU.......... Não. É aqui pertinho. Quer ver?

SOLIMAR...... Quero. Depois peço a meus pais que me comprem uma plantinha. (As duas destrocam a plantinha e a boneca: Analu pega a plantinha com todo carinho e Solimar pega a boneca sem cuidado nenhum, segurando-a também por uma perna e balançando-a...)

ANALU.......... Ficamos conversando e nem perguntei o seu nome.

SOLIMAR...... Solimar.

ANALU.......... Solimar. Bonito... É sol e mar, não é?

SOLIMAR...... É. Eu também acho bonito: o sol e o mar são duas coisas lindas. E o seu nome, qual é?

ANALU.......... Analu?

SOLIMAR...... Ana Lúcia?

ANALU.......... Não. Ana Luz!

SOLIMAR...... Não conheci ninguém com esse nome.

ANALU.......... Minha mãe estava na dúvida: Ana ou Luz. Então meu pai sugeriu os dois: Ana Luz. Aí, depois de eu nascer, começaram a chamar-me Analu em vez de Ana Luz.

SOLIMAR...... Você gosta?

ANALU.......... Adoro.

SOLIMAR...... Engraçado: você tem a LUZ e eu tenho o SOL!

ANALU.......... (Rindo) Somos brilhantes!

SOLIMAR...... (Rindo) Então, vamos, Luz!

ANALU.......... (Rindo) Vamos, Sol!

(As duas saem pela ESQUERDA, mas SOLIMAR volta, joga a boneca no banco e sai de novo)

 

(Pouco depois, pela ESQUERDA, entram BEL e BERTA)

BERTA.......... (Mostrando a boneca no banco) Olhe, uma boneca!

BEL............... (Pega a boneca) Será que alguém a esqueceu aqui?.

BERTA.......... Deixa ver... (Bel entrega-lhe a boneca, e Berta examina-a com atenção) Não está estragada.

BEL............... Lembra-se daquelas duas meninas que passaram por nós, agora mesmo?

BERTA.......... Lembro. Uma delas estava com uma plantinha nas mãos.

BEL............... É isso mesmo. Se não estou enganado, a outra levava uma boneca. Lembra-se que ela voltou atrás e jogou uma coisa neste banco.

BERTA.......... Eu vi que ela voltou, mas não prestei atenção ao que ela fez.

BEL............... Eu também não. Mas, agora, eu tenho certeza, de que o que ela jogou no banco, foi esta boneca, porque quando se cruzou com a gente já não tinha mais a boneca.

BERTA.......... (Examinando a boneca) Tem uns bonitos olhos azuis... Por que a terá deixado  no banco?...

BEL............... Sei lá!  Tem tanta gente maluca!

BERTA.......... Espero que não esteja envenenada... (Cheira-a) Uuuu!... Está perfumada... (Devolve-a)

BEL............... (Pega a boneca de volta e também a cheira) É um perfume suave... acho que já usei esse perfume...

BERTA.......... (Pensativa) Deus sabe por que mãos sujas já andou essa boneca...

BEL............... A menina que a deixou aqui, estava limpa e bem vestida.

BERTA.......... Mas, se ela jogou fora, tinha algum motivo... Além disso, você já tem várias bonecas. Faz coleção?

BEL............... Não. Mas há meninas por aí que não têm nenhuma boneca. Posso doá-la...

 

(Entram pela DIREITA, GU e RO)

GU................. Estão brincando de bonecas?

RO................ Bem no meio da rua?

BEL............... Pegue! (Atira a boneca sobre GU e ele a pega automaticamente) Vá brincar você com ela!...

 

(BEL e BERTA saem de cabeça erguida pela DIREITA. Os dois ficam parados no meio do palco, Gu com a boneca, sem saber o que fazer com ela).

GU................. O que é que eu faço com esta boneca?

RO................ (Gozador) Brinque com ela!

GU................. Eu, brincar de boneca? Vou jogar no lixo! (Olha para os lados como procurando uma lixeira)

RO................ Não pode fazer isso com um presente dado por uma menina, com tanto amor.

GU................. Não enche! (Vá olhar pela direita e pela esquerda e volta correndo ao centro)  Adivinha quem está chegando! Mando... Logo ele... Preciso esconder a boneca...

RO................ Se ele vê você com a boneca, vai virar a maior piada da turma!

GU................. O que vou fazer?...

 

(MANDO entra pela ESQUERDA. GU está de costas)

MANDO......... Oi, cambada! Qual é o galho? (GU esconde rapidamente a boneca debaixo da camisa).

GU................. Oi, Mando!

RO................ Oi! Tudo bem com você?

MANDO......... (Olha o vulto na camisa de GU, que ele tenta esconder com as mãos) Está grávido? (Os três caem na gargalhada e GU tira a boneca de debaixo da camisa)

RO................ Foi a maluca da Bel que lhe deu.

GU................. Deu, nada! Jogou nas minhas mãos e se mandou. Ela e a sua inseparável amiga e também maluca, Berta.

MANDO......... Por que fez isso?

GU................. Você quer saber por que uma maluca faz uma besteira? Se alguma vez fizer uma coisa séria, aí, sim, você pode perguntar por que fez uma coisa séria!

RO................ Não pode jogar no lixo. É uma boneca bonitinha e em bom estado...

GU................. (Olha para os lados) Não sei o que é que fazer com ela.

MANDO......... Pelo menos não a coloque debaixo da camisa. Vão pensar mal de você!

GU................. (Empurra a boneca para Mando) Tome. Fique com ela!...

MANDO......... (Rejeita a boneca com as mãos) Não, obrigado, não sou uma boa mãe!

 

(Entra pela ESQUERDA, TINA, uma menina pequena, vestida pobremente, mas limpa e bem arrumadinha. Vai passar por detrás deles, quando é vista por Mando).

MANDO......... (Arranca a boneca das mãos de Gu e chama Tina) Menina! (Ela pára e olha para ele, sem se aproximar) Oi!... (TINA, temerosa, olha para os lados, sem decidir-se a responder). O meu nome é Mando e o seu nome, qual é? (Tina continua sem se aproximar nem responder)  Quer esta boneca? (Os olhos da menina brilham de satisfação).

TINA.............. Quero! (Aproxima-se de MANDO e estica os braços dizendo) O meu nome é Tina.

MANDO......... Pra você, Tina! (Entrega-lhe a boneca e Tina pega-a, olha-a, como se não acredita-se, ajeita-a nos braços, como se fosse um neném e encosta seu rostinho nela)

TINA.............. É pra mim, mesmo?

MANDO......... É!

TINA.............. Obrigado! Muito obrigado! (Aproxima-se, fica na ponta dos pés e beija Mando no rosto)  Vou mostrar à minha mãe! (Sai correndo pela DIREITA)

MANDO......... (Fica vendo a menina desaparecer) Já fiz a minha boa ação de hoje! (Senta-se no banco).

GU................. Às custas da minha boneca! (Senta-se ao lado de Mando).

MANDO......... Da sua boneca?! Você não a queria! Ficava escondendo-a debaixo da camisa!

RO................ (Referindo-se a Gu) Não é pela boneca. É pelo beijo da menina... (Senta-se também).

MANDO......... Se quiser, eu passo o beijo pra você. (Aproxima-se de Gu, fazendo biquinho com a boca, como se fosse beijá-lo)

GU................. (Empurrando-o) Sai daí, capeta!

MANDO......... Então, não reclame! Você ficou contente de ser ver livre da boneca!

RO................ Mas já está com saudades dela!

GU................. Pare de falar besteiras. (Levanta-se) Vamos embora!

MANDO......... Pra onde estão indo?

GU................. Pra nenhum lugar.

RO................ (Levanta-se) E você?

MANDO......... Eu? Esqueci... (Olha para a esquerda e para a direita. Depois mostra a direita). Acho que eu vinha de lá.

GU................. Não, você vinha de lá (Mostra a esquerda).

MANDO......... Dá na mesma. E vocês vão pra que lado?

RO................ (Mostra a esquerda) Pra lá!

MANDO......... Vou com vocês! (Levanta-se).

GU................. Vamos!

 

(Quando se encaminham para a ESQUERDA, aparece, correndo, pela DIREITA, TINA, trazendo nas mãos, um vaso com uma plantinha).

TINA.............. (Chamando) Espere! (Os três param e olham para Tina).

MANDO......... Oi, Tina!

TINA.............. (Aproxima-se de Mando. Ficam todos olhando a menina) Minha mãe tem uma barraquinha na calçada e fica vendendo mudas de plantas. Ela me deu esta plantinha pra você. Ela gostou muito da boneca e também de você, mesmo sem tê-lo visto. (Mando fica meio sem graça e não sabe o que fazer. Os demais ficam olhando) Pegue, é pra você! (Mando pega o vaso com a muda)

MANDO......... Obrigado!

TINA.............. Mamãe disse que você tem que cuidar bem dela, regando-a, colocando-a ao sol, mas não muito tempo para que não queime.

MANDO......... Qual é o nome desta planta?

TINA.............. Mamãe me disse, mas eu esqueci: é um nome muito difícil!

RO................ Deve ser uma bananeira!

GU................. doido! Bananeira não é assim!

RO................ Então... mangueira;

TINA.............. (Rindo) Não é nada disso! É uma planta importante! Veio de perto do rio Amazonas.

MANDO......... Posso deixá-la neste vaso?

TINA.............. Pode, mas quando começar a ficar grande, você tem que mudá-la para um lugar onde as raízes possam crescer...

MANDO......... Vou levar pra fazenda.

TINA.............. Minha mãe entende muito de plantas, sabe? Ela diz que, cuidando de uma planta, a gente aprende a cuidar da família e dos amigos...

GU................. Legal!

TINA.............. Preciso ir ajudar minha mãe. Tchau!

(TINA sai correndo pela DIREITA).

MANDO......... (Gritando) Muito obrigado!

RO................ A boneca que virou planta!

GU................. Agora tem que procurar saber o nome da plantinha.

MANDO......... Se não achar o nome, vou chamá-la de Tina!

RO................ Que romântico!

GU................. Espero que não seja uma jaqueira!

RO ...............  (A Gu) Viu o que você perdeu? Não quis a boneca e perdeu um beijinho de Tina e uma plantinha linda sem nome, que recebeu o nome da linda Tina! Coitadinho! (Dá umas palmadas nas costas de Gu).

GU................. Vamos embora! (Encaminha-se para a ESQUERDA)

MANDO......... Eu vou até a barraca da mãe de Tina. Agradecer e saber o nome da muda.

GU................. (Voltando-se) Que muda? Ela tem uma filha muda?

MANDO......... Esta muda! A plantinha!... Você é burro, é?

GU................. Olha o respeito ou quebro a sua muda!

RO................ (A Mando) Eu vou com você. Estou curioso!

GU................. bom! Vamos os três!...

(Saem os três pela DIREITA)

 

(Pouco depois entram pela ESQUERDA, SOLIMAR e ANALU. Analu traz a mesma plantinha de antes, e SOLIMAR, agora, também traz uma plantinha. Entram falando)

ANALU.......... Vamos sentar um pouco (Senta-se e coloca a plantinha ao seu lado).

SOLIMAR...... (Sentando-se) Estava precisando mesmo sentar-me um pouco. (Coloca também a plantinha no banco, ao seu lado).

ANALU.......... Viu? Nem precisou gastar dinheiro!

SOLIMAR...... Foi muita bondade, a dona da loja dar-me de presente esta plantinha.

ANALU.......... Mas não esqueça a condição...

SOLIMAR...... Sei. Cuidar dela como se fosse da família. Eu prometi e vou cumprir.

ANALU.......... Disse que dá umas flores muito lindas.

SOLIMAR...... Como é que a dona da loja disse que era o nome desta planta?

ANALU.......... Já esqueceu?

SOLIMAR...... Já. Colocam uns nomes tão complicados nas plantas que a gente esquece logo! Você lembra-se do nome?

ANALU.......... Não. Eu também esqueci. Pra falar a verdade, não prestei muita atenção no nome.

SOLIMAR...... Vamos voltar e perguntar?

ANALU.......... É melhor inventar um nome pra ela, como eu fiz. Lembra-se que eu a chamo “Amazonina”?

SOLIMAR...... Engraçado. A moça disse que esta planta também é da Amazônia!

ANALU.......... Pelo jeito, as plantas da Amazônia estão na moda. Vamos escolher um nome para a sua planta. Que tal “Amazonino”?

SOLIMAR...... E se for fêmea? (As duas riem)

ANALU.......... Existem plantas fêmeas e machos?

SOLIMAR...... Existem, sim. Você nunca ouviu falar de mamão macho e mamão fêmea?

ANALU.......... Nunca. Como sabem qual é o macho e qual é a fêmea?

SOLIMAR...... O macho só dá flores e uns mamãozinhos mixurucas que não servem pra comer. A fêmea é que dá os mamões grandes e comestíveis.

ANALU.......... Quer dizer que quem carrega o peso mesmo é a fêmea. É sempre assim! (As duas riem).

SOLIMAR...... Que tal chamar a minha plantinha de... (pensa um pouco) ... de... “Amazoninha”?

ANALU.......... Não, isso não! Vai confundir com o nome da minha planta, “Amazonina”. Por que não chama... (Fica falando baixinho e contando com os dedos e depois fala devagar)... “Sa-no-za-ma”...

SOLIMAR...... Sanozama”? Nossa, que nome é esse?

ANALU.......... Sanozama”... Amazonas ao contrário...

SOLIMAR...... (Soletrando) Sa... no... za... ma... É... Mas, é meio complicado!

ANALU.......... Mas é original! Meu pai teve um colega de escola, que se chamava Otualp.

SOLIMAR...... E o que isso tem a ver com a minha plantinha?

ANALU.......... Otualp é o contrário de Plauto, que era o nome do pai dele.

SOLIMAR...... Coitado! Ter que agüentar esse nome!... bom! Por enquanto vou chamá-la de... Como é mesmo?

ANALU.......... Sanozama” é fácil: Sano e zama.

SOLIMAR...... Sano e zama... “Sanozama”.

ANALU.......... Quando se acostumar, vai gostar.

SOLIMAR...... Espero que sim. Pelo menos todos vão perguntar “que nome é esse?” E eu vou desafiá-los a acertar!

ANALU.......... Vamos embora? Preciso levar a minha “Amazonina” para casa.

SOLIMAR...... E eu a minha “Sanozaminha” também. Pra conhecer os outros membros da família... Espero que goste deles...

ANALU.......... Então, vamos. (Pegam suas plantinhas e se dirigem à direita).

 

(Nesse instante, ENTRAM, pela DIREITA, MANDO, RO, GU e TINA, todos com uma plantinha, menos TINA que traz a bonequinha. Todos param olhando-se).

GU................. Oi, Analu!... (Cumprimentam-se)

ANALU.......... (Apresenta Solimar aos demais) Esta é minha amiga Solimar. Acabamos de conhecer-nos. (A Analu) Estes são meu colegas: (Apresenta um por um) Mando, Gu e Ro

MANDO......... (Apresentando Tina) E esta é Tina, a nossa mais nova amiga! A mãe dela tem uma barraca onde vende plantinhas.

SOLIMAR...... É por isso que todo mundo está com plantinhas?

TINA.............. Mando me deu esta bonequinha.

ANALU.......... Quem diria, Mando! Você também brinca de bonequinha...

TINA.............. (Aproxima-se das duas e mostra a boneca) Olhem que linda... tem os olhos azuis...

SOLIMAR...... (Olhando com atenção a boneca) Esta boneca é...

ANALU.......... (Interrompendo-a) É muito linda. Foi um belo presente! Cuida bem dela!

TINA.............. Vou cuidar! (Aconchega a boneca nos seus braços).

SOLIMAR...... (Puxa Analu pelo braço e se fasta um pouco com ela. Os demais ficam conversando, sem ouvir-se o que falam)  Essa é a minha boneca...

ANALU.......... Era! Lembre-se, você a deixou no banco de propósito. Não a queria mais. Preferia uma plantinha.

SOLIMAR...... Tudo bem! Não estou reclamando. Apenas que fiquei surpresa e... contente pela menina.

ANALU.......... Não foi ela que a encontrou. Deve ter sido Mando e Mando deu pra ela!

SOLIMAR...... Está em boas mãos!

ANALU.......... Com certeza!

MANDO......... (Virando-se para as duas) Que é que vocês estão fofocando aí, sozinhas?

ANALU.......... Sobre o seu gosto por bonecas... (Risos)

RO................ (A Mando) Bem feito, quem mandou você ser curioso?

MANDO......... (Com fingida cara de arrependido) Estou arrependido...

TINA.............. Eu preciso ir embora, ajudar minha mãe.

MANDO......... Fica mais um pouco

TINA.............. Não posso, não. Tchau, gente!

TODOS........ Tchau, Tina! (Todos se despedem, cada um do seu jeito e TINA sai pela DIREITA).

 

(Logo a seguir, ENTRAM, pelo mesmo lado DIREITO, BEL e BERTA)

BERTA.......... Oi, turma!

BEL............... Nossa! Reunião de quê?

BERTA.......... (Prestando atenção às plantinhas) Todo mundo com plantinhas!

BEL............... Hoje é o dia da árvore?

RO................ Não. Só se for o dia da plantinha.

GU................. Ou o dia do galho.

BERTA.......... Mas... por que está todo mundo com uma plantinha?

BEL............... Alguma exposição ou promoção?

MANDO......... Tudo por culpa de uma boneca! (Risos)

BERTA.......... Por culpa de uma boneca?

BEL............... Que boneca?

ANALU.......... É uma longa história, , Solimar.

RO................ (A Solimar) Conta!

SOLIMAR...... Eu tinha uma boneca. Não gostava muito dela, mas andava quase sempre com ela.

ANALU.......... Solimar e eu nos encontramos neste mesmo lugar. Foi coincidência. Eu não a conhecia.

SOLIMAR...... Eu estava com a boneca e ela com uma plantinha.

ANALU.......... Solimar ficou curiosa com a minha plantinha e ficamos conversando.

SOLIMAR...... Então, fomos ver onde ela tinha comprado a plantinha.

ANALU.......... Solimar não quis mais a boneca e a largou neste banco.

MANDO......... Então, a boneca que eu dei à Tina, era sua?

SOLIMAR...... Era! Mas graças a isso, eu ganhei de presente da dona da loja, esta plantinha. Olhem que bonita! Minha amiga e eu demos-lhe o nome de “Sanozama”... Sanozaminha...

GU................. Que significa esse nome, Sano-não-sei-o-quê?

SOLIMAR...... Sanozama”... Adivinha! 

GU................. Sei lá! Não vou perder tempo adivinhando!

ANALU.......... A minha chama-se “Amazonina”, porque veio da Amazônia...

GU................. (A Solimar) Então, esse tal de “não-sei-o-quê” deve ser algo da Amazônia. Acertei?

SOLIMAR...... Quase. É Amazonas, ao contrário.

GU................. Então, você devia plantar essa muda também ao contrário, de cabeça pra baixo (Risos)

BEL............... Agora eu vou continuar a história da boneca. Eu peguei a boneca neste banco.

BERTA.......... Depois chegou Gu e Ro e...

GU................. (A Berta) E você empurrou a boneca pra cima de mim e Mando a roubou de mim para roubar o coraçãozinho de Tina...

MANDO......... Êpa! Nada de roubar e muito menos coraçãozinhos de ninguém. Eu dei a bonequinha a uma menina carente... E ficou muito feliz com ela!

RO................ Nossa! Mas essa boneca andou mesmo de mão em mão.

BERTA.......... De Solimar, passou para Bel, de Bel para Gu, de Gu para Mando, de Mando para Tina! Só não tocamos nela eu e Ro.

SOLIMAR...... Vocês não estão percebendo uma coisa.

RO................ O quê?

SOLIMAR...... Ela foi trocada quase sempre por uma plantinha! Eu a joguei fora e ganhei uma plantinha.

BEL............... Eu achei, mas não ganhei uma plantinha.

GU................. Porque você a atirou em mim. Se você tivesse ficado com ela, agora estaria cuidando de uma plantinha como esta (Mostra sua plantinha).

MANDO......... (Imitando a fala de uma criança) Eu doei a bonequinha e ganhei uma plantinha, há-há-há!

GU................. (Também imitando...) E um beijinho, há-há-há!

BERTA.......... (Animada) Onde fica a barraquinha da mãe de Tina?

RO................ (Mostra a direita) Logo aí... Descendo pela calçada da direita.

BERTA.......... Vamos, Bel?

BEL............... Vamos. Eu não quero ser a única sem plantinha!

(BERTA e BEL saem pela DIREITA)

 

GU................. (Senta-se no banco, segurando a plantinha. Ro imita-o) Eu não sabia que, nas lojas, existiam tantas mudas da Amazônia à venda.

ANALU.......... (Passeia, recordando) Uma vez, quando eu era criança, a professora passou um filme sobre a Amazônia. Só tinha mato e muitas árvores. Ela dizia que era necessário preservar a floresta amazônica. Aí, eu perguntei se não tinha gente na Amazônia. Ela falou que sim. Então, eu perguntei se não tínhamos que preservar também as pessoas da Amazônia. Ela me passou um pito e falou com minha mãe que eu não tinha consciência ecológica. (Senta-se).

RO................ Pois hoje estamos parecendo uma selva!

SOLIMAR...... Somos os novos defensores da ecologia amazônica! (Senta-se)

ANALU.......... Se estas mudinhas pudessem falar...

BERTA.......... (Interrompendo) Mudas não falam! (Risos)

ANALU.......... (Depois de rir) Pois é, se estas mudinhas pudessem falar, eu acho que pediriam que as levássemos de volta à Amazônia, para ficarem com suas famílias de árvores.

MANDO......... Vocês lembram-se do que disse a mãe de Tina... cuidando de uma planta, a gente aprende a cuidar da família e dos amigos...”

RO................ Bem lembrado! Acho que vou dar o nome de minha mãe à minha plantinha. Preciso cuidar e tratar melhor minha mãe...

GU................. Nesse caso, vou ter que chamar a minha plantinha de Rafa!

SOLIMAR...... Quem é Rafa?

GU................. É aquela peste de meu irmão mais novo. Puxa! Vou ter que cuidar muito desta minha plantinha...

ANALU.......... Eu já batizei minha plantinha com o nome de Amazonina, mas pelo jeito, vou ter que mudar-lhe o nome.

SOLIMAR...... Não precisa. É só acrescentar um sobrenome. A minha plantinha chama-se Sanozama. Vou chamá-la Sanozama-irmã-mais-velha. Nossa! Minha irmã mais velha pensa que é minha chefe!

ANALU.......... Então, (Dirigindo-se à sua plantinha) você, minha querida Amazonina, de agora em diante vai chamar-se Amazonina-pai. Vou ter que cuidar de você muito bem, todos os dias...

MANDO......... Como todos estão batizando suas plantinhas, fiquei num aperto, (À sua plantinha) , plantinha? Que nome vou dar a você? (Passeia, pensando) Caraca! Vou ter que colocar toda a família, desde meus pais até a minha irmãzinha mais nova...

ANALU.......... Família. É um nome bonito para a sua plantinha.

MANDO......... É. Acho que vou chamá-la Família.

 

(Entram pela DIREITA, BEL e BERTA, trazendo cada uma sua plantinha, e TINA a sua bonequinha)

MANDO......... Oi, Tina!

TINA.............. (Coloca-se ao lado de Mando) Oi, Mando!

BEL............... Compramos as duas últimas mudas da Amazônia.

BERTA.......... Adivinhem quais são os nomes destas plantinhas?

SOLIMAR...... Agora já não importam mais os nomes.

BEL............... Por quê?

SOLIMAR...... Trocamos todos os nomes!

BERTA.......... Trocaram, por quê?

ANALU.......... Por causa do que disse a mãe de Tina.

TINA.............. Minha mãe?

MANDO......... É. Sua mãe. Já esqueceu. Foi você mesma que nos contou. Sobre cuidar das plantas e da família...

TINA.............. Ah! Já sei. Cuidando de uma planta, a gente aprende a cuidar da família e dos amigos...

BERTA.......... O que tem a ver isso com trocar os nomes das plantas?

ANALU.......... Eu dei à minha plantinha o nome de meu pai, porque tenho que aprender a cuidar bem dele e a tratá-lo melhor...

GU................. Todos demos às nossas plantinhas, os nomes das pessoas que precisamos tratar melhor. Eu dei o nome de meu irmão mais novo.

MANDO......... Todos, não. Eu dei o nome de Família!

BEL............... Quer dizer que nós também temos que dar um nome da família às nossas plantinhas?

RO................ Não é obrigatório, mas todos nós fizemos.

BERTA.......... Acho uma boa idéia. Deixem-me pensar...

BEL............... Eu já sei. Vou chamá-la de Albina!

ANALU.......... Quem é Albina?

BEL............... Minha empregada.

BERTA.......... Empregada vale?

GU................. Deve valer. Mora com a família, é como se fosse da família.

BEL............... Minha empregada leva pouco mais de um ano em casa, mas é uma ótima pessoa. Todo mundo diz. Mas eu a trato muito mal...

MANDO......... (Com decisão) Bota o nome dela na plantinha!

SOLIMAR...... E você, Berta, já pensou?

BERTA.......... Bel me deu uma boa idéia. Não vou pôr à minha planta o nome de minha empregada. Mas o nome de um priminho que, quando chega em casa, parece um terremoto. Eu preciso me refugiar no meu quarto e trancar a porta. Se não fizer isso, ele arruína meu quarto e um dia vou ter que dar-lhe um pontapé no traseiro, que vai passar um mês sem poder sentar-se!

RO................ Esse seu primo não é um terremoto, é um tusumani!

BERTA.......... Fico com pena da minha plantinha. Ter que agüentar o nome de meu priminho é dose.

RO................ O pior é que sua plantinha pode virar espinheiro! (Risos)

TINA.............. Vou contar à minha mãe o que vocês fizeram. Ela vai gostar.

MANDO......... Conte e agradeça de nossa parte.

RO................ Por falar em nomes, eu estou curioso em saber o porquê dos nomes de cada um de nós, pois alguns dos nossos nomes são meio esquisitos.

GU................. Saber o porquê, como?

RO................ Por exemplo. Eu sou Ro de Rodrigo.

ANALU.......... Nossa! Pensei que fosse de Romeu!

TINA.............. Tem razão: os nomes de vocês parecem pedaços de nomes. (Risos)

MANDO......... O seu também.

TINA.............. É. Tina é um pedaço de Cristina. (Risos)

GU................. O meu é um pedaço de Gustavo.

MANDO......... E eu sou Mando de Armando.

ANALU.......... Por que Mando?

MANDO......... Não gosto de nomes compridos. E “Arma”, não servia: sou contra a violência. (Risos) Então escolhi “Mando”...

GU................. Porque gosta de mandar! (Risos)

MANDO......... (A Gu, com voz de filme de terror) É isso mesmo! Um dia serei seu chefe... (Com voz normal), Minha família gostou de Mando e ficou. E você, Analu?

ANALU.......... Todos pensam que é de Ana Lúcia, mas não é não. É de Ana Luz, que é meu nome duplo.

SOLIMAR...... Eu achei Luz um nome muito bonito, sabe? Quando eu tiver uma filha vou chamá-la Luz.

RO................ Então vai dar à luz, mesmo! (Risos) Quem fala, agora?

BEL............... Eu. O meu nome é fácil: Bel é um pedaço de Isabel.

BERTA.......... O meu também é fácil: Berta é um pedaço de Roberta.

SOLIMAR...... O meu não é pedaço de nenhum nome. É o contrário. A soma de dois nomes! Sol e Mar.

MANDO......... É o que eu mais queria agora: sol e mar!...

SOLIMAR...... E sombra e água fresca! (Risos)

GU................. E uma bonequinha... (Mais risos)

RO................ Sol e Mar... É um nome bem ecológico!

BEL............... Na Amazônia tem sol, mas não tem Mar.

BERTA.......... Mas tem o rio Amazonas que é um “quase-mar”.

ANALU.......... É, mas, agora, com os novos nomes das nossas plantinhas, o que temos nas mãos, não é mais a Amazônia, mas nossas famílias.

SOLIMAR...... Pois é! Parece que, agora, a nossa Amazônia é aqui!

MANDO......... Então... Viva a Amazônia!

TODOS........ (Rapidamente, todos ficam de pé, enfileirados, levantando os vasos com as plantinhas. Tina, no meio, levanta a boneca) Viva a Amazônia!!!

 

 

FIM

 

(Autor: Gerardo Cabada Castro)