Descrito pelo Pe. Antônio Vieira

 

 

"Mas já que estamos nas covas do mar,

antes que saiamos delas, temos lá o irmão polvo,

contra o qual têm suas queixas, e grandes,

não menos que S. Basílio e Santo Ambrósio.

 

O polvo, com aquele seu capelo na cabeça, parece um monge;

com aqueles seus raios estendidos, parece uma estrela;

com aquele não ter osso nem espinha,

parece a mesma brandura, a mesma mansidão.

E debaixo desta aparência tão modesta,

ou desta hipocrisia tão santa, testemunham constantemente

os dois grandes Doutores da Igreja latina e grega,

que o dito polvo é o maior traidor do mar.

 

Consiste esta traição do polvo primeiramente

em as cores a que está pegado.

As cores, que no camaleão são gala,

no polvo são malícia;

as figuras, que em Proteu são fábula,

no polvo são verdade e artifício.

 

Se está nos limos, faz-se verde; se está na areia, faz-se branco;

se está no lodo, faz-se pardo; e se está em alguma pedra,

como mais ordinariamente costuma estar,

faz-se da cor da mesma pedra.

 

E daqui que sucede?

Sucede que outro peixe, inocente da traição,

vai passando desacautelado, e o salteador,

que está de emboscada dentro do seu próprio engano,

lança-lhe os braços de repente e fá-lo prisioneiro.

 

(Padre António Vieira no Sermão de Santo António aos Peixes)